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A Pandemia revela negações

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A metáfora do iceberg já foi utilizada de várias formas nessa pandemia: para apresentar as pesquisas sobre a notificação dos casos daqueles que contraíram o vírus [i] , a fim da ONU alertar para o impacto devastador a partir do número de mortos na Síria [ii] , ou mesmo para falar da banalidade do mal tão presente na superficialidade do Narcisismo [iii] , entre tantas outras associações com a mesma imagem. Quando sabemos que a parte da realidade que enxergamos é a ponta de um iceberg do que a ela corresponde, mesmo sem visualizarmos a presença do restante do gelo, sabemos que estamos diante de alguma coisa que nos provoca incertezas [iv] . Foto: Reprodução O termo ‘negação’ em psicanálise é estudado a partir de vários conceitos. Acontece que Freud utilizou termos distintos, em Alemão, para referir-se a formas diversas de negar, mas todos esses termos podem, na Língua Portuguesa, ser compreendidos pelos leigos como negação. Pretendemos, porém,   enfocar aqui   somente ...

O vírus na superfície do lago

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Narciso [i] se afoga no Lago ao se apaixonar por sua imagem ali refletida e desejar possuí-la. O traumatismo na atualidade nos questiona: ‘onde está o vírus? Preciso saber a fim de me proteger dele’. A pressa nas ações necessárias numa emergência social  demanda uma paciência em sustentar  pressas individuais presentes na busca pela  tranquilidade das águas, imaginando que as ondas só existem em mares distantes. É inquietante, significativa e presente a formulação de Hannah Arendt de que o mal banal está na superfície [ii] . Imagem: site Ojo al clima Nas batalhas medievais, há uma aparência de vencedores e perdedores. Em cada duelo, o sobrevivente vitorioso era aquele que matava os inimigos. Quem mostrava, de alguma forma, a fragilidade de seu corpo era considerado um perdedor. A destruição de pessoas continha uma aliança entre uma ideia de fim de guerra com um momento de triunfo. O impulso de domínio foi, aos poucos,   se infiltrando, diante das descober...

A Primeira Pessoa do Plural

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         Nesse tempo, a possibilidade de utilização do pronome Nós necessita ser considerada, pois paradoxalmente, persiste uma polarização no pensamento. Todos somos o alvo de uma guerra travada contra o invisível e há uma resistência grande ao Nós . Portanto, a reflexão sobre o Eu e o Eles em psicanálise parece prudente.          Primeira Guerra Mundial - site Dom Total Sigmund Freud considerou que a distinção entre o Eu e mundo externo é realizada na medida em que a vida psíquica vai ganhando força. No início, o Eu ama somente a si próprio e o mundo externo coincide com o que é indiferente, ou mesmo, enquanto fonte de estímulos, como algo desagradável [i] . A realidade vai sendo percebida a partir das formas como os critérios que diferenciam o externo e o interno vão sendo utilizados e modificados. Primeiro, não há critério de distinção, há somente indiferença, o Eu não é apenas considerad...

Somos transmissores

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  Sigmund Freud [i] , ao visualizar a Estátua da Liberdade quando chegou à Nova York, formulou a seguinte frase proferida a um discípulo: ‘Eles não sabem que estamos trazendo a peste’. Retomamos essa afirmação para refletirmos sobre o quanto as ideias são transmitidas com imensa facilidade como vírus, independente de sua potencialidade ser boa ou má para sociedade. Foto: Reprodução Em tempos em que um vírus não conhecido pelo corpo humano se prolifera com facilidade e vai assustando o mundo, cada um se protege do contato físico. Um aperto de mão, um abraço ou uma proximidade física marcavam a presença de uma companhia e de uma cumplicidade. Hoje, cada vez mais, a presença do outro precisa estar repensada dentro de cada um para que um afastamento concreto seja realizado e a proximidade humana seja concretizada por essa ação. É necessário para uma proteção efetiva contra o vírus que pode matar,   que os conselhos não ingressem apenas por ordens a serem obedecidas, mas...

O humor é o bem que a maturidade constrói

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A vida implica em não morrermos de véspera, ou seja, em construirmos um aparelho mental capaz de possuir uma sensação de prazer diferenciada de um alívio como uma mera descarga de tensão. Nos construímos através dos desafios transformadores diante das inquietações inovadoras. Desafios não engendrados por competição, mas por superação do passado, ou seja, por pequenos lutos.          Foto: Reprodução É comum algumas pessoas acreditarem que conseguem superar o passado, se vingando de frustrações experimentadas na passividade, sem escolha. Foi exatamente nesse ponto que a psicanálise abriu uma nova possibilidade. Sigmund Freud observou que não eram os acontecimentos que simplesmente provocavam um sofrimento. Mas a complexidade com a qual cada pessoa toma a realidade material à sua frente e pode torná-la uma sofredora ou uma pessoa madura. A maturidade emocional não é algo adquirido de maneira simples, apenas pela passagem do tempo, mas um t...

Autômatos ou autônomos

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            Em tempos onde a individualidade é confundida com o individualismo, percebemos o quanto é difícil considerarmos o limite ente o egoísmo e a independência. Medo e culpa   são sentimentos com os quais precisamos lidar a fim adquirirmos coragem para nos posicionamos e definirmos nossas atitudes, aliás, as únicas que podemos escolher. Porém, o excesso de informações e mudanças no Globo nos atordoa e estamos muito mais do que inseguros. Foto: Reprodução Observamos duas manifestações freqüentes diante do atordoamento que a invasão de privacidade provoca: sensações paranóides ou de arrogância. Em psicanálise, a falta de amadurecimento psíquico diante de um excesso de estímulo atinge a intimidade, porque essa ainda não está bem revestida pela possibilidade de diferenciar o externo do interno. A nossa autonomia vai se desenvolvendo pelo controle esfincteriano, a locomoção e, principalmente, pelo pensamento, porque é...

‘Meu sonho é ser imortal e morrer logo depois”

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  “Meu sonho é ser imortal e morrer logo depois” frase do filme de Jean Luc Godard, Acossados, proferida pelo personagem de Jean Pierre Melville          A imortalidade...nem é considerada um desejo em psicanálise, pois a mortalidade nem está representada em nosso Inconsciente. Ideia muito complexa trazida por Sigmund Freud em 2019 no texto Das Unheimliche [i] . Não possuímos experiência de nossa própria morte, somente de perdas ou de ‘quase’ morte. O que é ‘quase’?, ainda não aconteceu. Jean- Paul Belmondo em cena do filme de Jean-Luc Godard . Foto Reprodução Só podemos acreditar na mortalidade ou na imortalidade, sem ver pra crer. Vivenciamos a perda e a morte dos outros, mas não a própria. A imortalidade só poderemos ver para acreditar se ela ocorrer de fato.   Real mesmo e, em gerúndio, temos apenas a vida. Crenças são os pensamentos que produzimos com argumentos que não fazem parte de nossa memória criada a partir de ...