Postagens

Servidão ao tempo

Imagem
         Escutando a belíssima canção de Gilberto Gil que completou nessa semana 78 anos, faço eco, como homenagem, a alguns trechos: ‘Tempo rei. Não me iludo. Tudo permanecerá do jeito que tem sido. Transcorrendo. Transformando...Não se iludam. Não me iludo. Tudo pode estar por um segundo’.          Gambá se defendendo através de paralisia imagem: Blog Marsupiais Brasileiros  Uma das   frases repetidas nesse período tão sombrio é ‘tudo vai passar’, como se nos consolássemos de que esse momento infeliz poderia ser considerado pontual. Pensamos, porém que essa frase deve ficar violenta quando escutada por aqueles que perderam entes queridos nessa pandemia. Não puderam sequer se despedir e a vida de alguém que amamos não é algo que simplesmente passa. Sabiamente, Gil transformou o nosso choque diante da finitude em poesia: ‘ tudo pode estar por um segundo’ . O luto, diferente de um estado m...

Rituais: obediência ou autonomia

Imagem
         Diante de tantas incertezas, nos vemos constantemente confrontados com nossa fragilidade. E assim, possuímos uma tendência mortífera a obedecer regras em busca de um amparo sem a possiilidade de nos apropriarmos do sentido para   paciência, para simplesmente darmos um tempo. Não possuímos os rituais de uma cerimônia de passagem de algo que ainda não aconteceu. Estamos diante de um abismo que nos interroga sobre o sentido de nossa existência . Difícil é nos apropriarmos e adquirirmos autonomia frente a essa questão sem a necessidade apressada de uma resposta. Foto: Reprodução   Precisamos modificar alguns hábitos de forma drástica: maior higiene e distância do que antes. E menos ou nenhum tempo para nos despedirmos de quem perdemos em 2020. Tempos sombrios. Sigmund Freud esteve ocupado com a observação e a compreensão de ritos na cultura [i] , conversando com a   antropologia, e demarcou que uma tendência compulsiva...

Onde estamos

Imagem
                      “Não estamos no mesmo barco, mas na mesma tempestade." Amyr Klink [i]                         Tempos sombrios.  O tempo nos situa a partir de parâmetros de reconhecimento diante de qualquer percepção. Porém, a fim de nos situarmos no espaço necessitamos diferenciar fronteiras e direções. Uma bússola ou um mapa não mostram apenas onde estamos, mas nos apresenta onde está o Norte, onde está o Oriente, onde está o outro... Diante das incertezas reveladas pela Pandemia, precisamos abandonar o desejo de nos situarmos no tempo a partir de  falsas previsões de futuro, mas nos reencontrarmos  no espaço em relação aos humanos.             Foto: Reprodução A frase de Amyr Klink foi sabiamente pronunciada em programa no canal CNN Brasil, O Mundo Pós Pandem...

A Pandemia revela negações

Imagem
A metáfora do iceberg já foi utilizada de várias formas nessa pandemia: para apresentar as pesquisas sobre a notificação dos casos daqueles que contraíram o vírus [i] , a fim da ONU alertar para o impacto devastador a partir do número de mortos na Síria [ii] , ou mesmo para falar da banalidade do mal tão presente na superficialidade do Narcisismo [iii] , entre tantas outras associações com a mesma imagem. Quando sabemos que a parte da realidade que enxergamos é a ponta de um iceberg do que a ela corresponde, mesmo sem visualizarmos a presença do restante do gelo, sabemos que estamos diante de alguma coisa que nos provoca incertezas [iv] . Foto: Reprodução O termo ‘negação’ em psicanálise é estudado a partir de vários conceitos. Acontece que Freud utilizou termos distintos, em Alemão, para referir-se a formas diversas de negar, mas todos esses termos podem, na Língua Portuguesa, ser compreendidos pelos leigos como negação. Pretendemos, porém,   enfocar aqui   somente ...

O vírus na superfície do lago

Imagem
Narciso [i] se afoga no Lago ao se apaixonar por sua imagem ali refletida e desejar possuí-la. O traumatismo na atualidade nos questiona: ‘onde está o vírus? Preciso saber a fim de me proteger dele’. A pressa nas ações necessárias numa emergência social  demanda uma paciência em sustentar  pressas individuais presentes na busca pela  tranquilidade das águas, imaginando que as ondas só existem em mares distantes. É inquietante, significativa e presente a formulação de Hannah Arendt de que o mal banal está na superfície [ii] . Imagem: site Ojo al clima Nas batalhas medievais, há uma aparência de vencedores e perdedores. Em cada duelo, o sobrevivente vitorioso era aquele que matava os inimigos. Quem mostrava, de alguma forma, a fragilidade de seu corpo era considerado um perdedor. A destruição de pessoas continha uma aliança entre uma ideia de fim de guerra com um momento de triunfo. O impulso de domínio foi, aos poucos,   se infiltrando, diante das descober...

A Primeira Pessoa do Plural

Imagem
         Nesse tempo, a possibilidade de utilização do pronome Nós necessita ser considerada, pois paradoxalmente, persiste uma polarização no pensamento. Todos somos o alvo de uma guerra travada contra o invisível e há uma resistência grande ao Nós . Portanto, a reflexão sobre o Eu e o Eles em psicanálise parece prudente.          Primeira Guerra Mundial - site Dom Total Sigmund Freud considerou que a distinção entre o Eu e mundo externo é realizada na medida em que a vida psíquica vai ganhando força. No início, o Eu ama somente a si próprio e o mundo externo coincide com o que é indiferente, ou mesmo, enquanto fonte de estímulos, como algo desagradável [i] . A realidade vai sendo percebida a partir das formas como os critérios que diferenciam o externo e o interno vão sendo utilizados e modificados. Primeiro, não há critério de distinção, há somente indiferença, o Eu não é apenas considerad...

Somos transmissores

Imagem
  Sigmund Freud [i] , ao visualizar a Estátua da Liberdade quando chegou à Nova York, formulou a seguinte frase proferida a um discípulo: ‘Eles não sabem que estamos trazendo a peste’. Retomamos essa afirmação para refletirmos sobre o quanto as ideias são transmitidas com imensa facilidade como vírus, independente de sua potencialidade ser boa ou má para sociedade. Foto: Reprodução Em tempos em que um vírus não conhecido pelo corpo humano se prolifera com facilidade e vai assustando o mundo, cada um se protege do contato físico. Um aperto de mão, um abraço ou uma proximidade física marcavam a presença de uma companhia e de uma cumplicidade. Hoje, cada vez mais, a presença do outro precisa estar repensada dentro de cada um para que um afastamento concreto seja realizado e a proximidade humana seja concretizada por essa ação. É necessário para uma proteção efetiva contra o vírus que pode matar,   que os conselhos não ingressem apenas por ordens a serem obedecidas, mas...