O Espetáculo de Final de Ano
Final do Ano é um período de celebrações, de finalizações de etapas e de planejamentos sobre o futuro. É comum que, nesse momento, os encontros e desencontros se tornem mais evidentes e se transformem em alvo de inúmeras reflexões. Solidão e família são termos recorrentes a cada festa. Sigmund Freud começou a escrever sobre uma explicação sobre a psicologia das massas em suas cartas em 1919 e a ideia criou forma somente após a virada do ano de 1920 para 1921, sendo publicado sobre o título Massenpsychologie und Ich-analyse (pode ser traduzido por Psicologia das Massas e Análise do Eu) . Ele apresentou o sentido para a falta de nitidez na tentativa de diferenciar a psicologia individual e a psicologia social. A nossa prematuridade (comparada a maturidade de outros animais ao nascer) nos faz dependentes dos cuidados para sobrevivência, mesmo que essa realidade não seja percebida pelo indefeso. Nos constituímos imersos a fenômenos sociais e somente sobrevivemos porque alguém promoveu a satisfação de nossas necessidades básicas.
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| Foto: Reprodução |
Ninguém se cria isolado da exterioridade. Porém, precisamos compreender de qual dependência social estamos falando hoje. Em tempos de influenciadores e seguidores digitais, as telas se tornaram um palco para quem se torna platéia e simultaneamente se percebe protagonista em sua vida ficcional. Protagonista ou platéia? Talvez todos coadjuvantes em uma história de consumo de vidas. Os seguidores ficam hipnotizados nas redes, fazendo parte de uma massa que assiste a um espetáculo na virtualidade e quem se mostra busca preencher um ícone em formato de coração medido por cliques com a denominação de curtidas. Então, as festas de final de ano receberam uma adição para o seu enredo: a estética da felicidade. Sorrisos, fantasias e alimentos são enfeitados para ostentarem uma vida não vivenciada, mas colorida pelo brilho de lentes e filtros que podem causar inveja. O texto de Freud (1921) citado acima retoma uma questão trabalhada desde os primórdios da psicanálise, a relação do Eu com a Realidade. Ele adverte que se deve ‘evitar concessões à pusilanimidade’, pois cedendo em palavras, podemos perder em substância. Então, faremos a distinção entre Eu e individual aqui a fim de retomarmos a reflexão sobre a nossa responsabilidade nas relações e fim de não cedermos a materialidade, dando permissão a perder o recheio de significado de valor. Tudo pode virar preço.
O individualismo na contemporaneidade nos estimula a tomarmos como o nosso Eu algo materialista no lugar de nosso Ser. Nosso Eu pode ser tomado como prova de nossa propriedade; sermos responsáveis pelo que ou quem nos sentimos donos: meu filho, minha casa, meu carro, meu marido, minha imagem .... Isso pode causar uma confusão de fronteira. Como se o território do Eu correspondesse a tudo o que posso chamar de meu. Retomemos: as perguntas sobre como construímos o nosso Eu alicerçaram a Psicanálise. Freud abriu uma discussão sobre a construção do Eu junto a nossa capacidade amorosa (Esse conteúdo está no texto Os Instintos e suas Vicissitudes) . O autor apresenta três opostos ao amar: ser amado, indiferença e o ódio. E associa a nossa possibilidade de amar ao tamanho de nosso espaço interno para abrigar a ambivalência. Ou seja, os desprazeres, quando não produzem apenas sensações e atos, dão lugar também à palavra, ao pensamento e ao desejo.
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| Foto: Reprodução |
A projeção é uma defesa primitiva às sensações de desprazer. Considerarmos elas como resultantes de estímulos externos constrói a teoria de que devemos fugir dos estímulos ruins para nos salvaguardar deles. Muitas pessoas atribuem a situações externas o motivo de suas dificuldades: ‘sou ciumenta, porque o meu namorado me traiu’, ‘sou deprimida, porque a minha mãe nunca me valorizou’, ‘sou ansiosa, porque meu pai sempre foi exigente’. A teoria de que a realidade externa precisa mudar os alivia de responsabilidade, e nos coloca em uma comodidade incômoda: a do sofrimento da vítima. Suportarmos o desprazer não nos faz masoquistas , mas seres ativos e desejantes: seres que percebem as suas fraquezas, incompletudes, cegueiras e finitude.
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O nosso amadurecimento psíquico estabelece a riqueza do nosso Ser, ele não depende de nada material, mas da passagem do tempo e de uma vida vivida, onde a caixinha de memória não é somente nostálgica, mas um espaço para o novo entrar. Obviamente sofremos influências do meio, porém é fundamental diferenciar o nosso julgamento de nosso pensamento crítico. Estamos em um momento onde o pensamento pode buscar justiça através da acusação como maneira de expulsar o ódio alimentado pelas frustrações não metabolizadas. O pensamento crítico, no entanto, percebe a relevância do que não sabemos, do que não temos, e do que nos escapa. Nos responsabilizarmos pela paciência com a diferença nos grupos, sejam eles familiares ou não, é fundamental e representa a nossa possibilidade amorosa.
Desejo que cultivemos em 2026 a vida na presença dos encontros repletos de desencontros, não encobrindo as ervas daninhas apresentadas por imagens da ausência da humanidade refletida no espelho da nossa alma.
Simone Engbrecht - psicanalista


