A Manutenção da Complexidade

 

         A geração  não  nativa digital buscava informações nos livros, nos jornais, no rádio e em alguns poucos canais de televisão. Com a chegada da internet, a preocupação começou a acontecer pela substituição dessas formas de registro e comunicação. Hoje muitos acreditam na substituição do humano pela IA. Inspirados em uma entrevista que o médico e neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis concedeu a Reinaldo Azevedo e a Walfrido Warde[i], pretendemos organizar uma questão sobre a nossa desumanização. Fica simples atribuir ao produto humano, a IA, a responsabilidade pelo fracasso da humanização. Ouvimos várias formas de antropomorfismo, considerando a IA um produto que se vira contra o criador. Mas como a proposta é a complexidade de uma questão, nos perguntamos como a destrutividade, produto da maldade humana, interfere em nossa ‘burrice natural’?

Foto, platéia: Reprodução

         Em outro texto nosso[ii], apresentamos algumas formas de Negação estudadas em Psicanálise. O nosso contato com a realidade é sempre parcial, pois a nossa subjetividade interfere na nossa consciência. Sigmund Freud revelou como os nossos desejos inconscientes atuam na nossa percepção, de maneira alucinatória, fantasiosa ou desligando as nossas sensações de uma possível racionalidade.

         A notícia de alguém aguardar um ator de cinema como se fosse um namorado[iii] provocou reações diversas entre as pessoas. Pretendemos aqui trazer à tona o infamiliar[iv] para nossa reflexão. O nosso contato com a realidade é sempre parcial e essa parcialidade só é constatada ao constatarmos também a nossa pequenez. A maturidade é inversamente proporcional ao tamanho que possuímos diante de nós.  Em uma situação concreta, não conseguimos saber exatamente o que é percebido, encenado, disfarçado ou acreditado por nós como real. O infamiliar, para Psicanálise, consiste num sentimento de percebermos uma cena que nos remeta a eternidade e ao mesmo tempo revele a nossa crença no fim. Essa sensação também aparece nas (im)possibilidades identificatórias diante do fracasso humano.

Joio e Trigo, Foto: Reprodução

         As informações e as imagens tem ingressado pelos nossos sentidos de maneira avassaladora com advento da internet. Elas são filtradas, tanto pelo nosso inconsciente, quanto pela nossa (in)capacidade de memória. Talvez para nos protegermos do fato de que o nosso planeta recebe em tempo real tantas informações como nós, um lado nosso insiste em nos tornarmos diferenciados através da desigualdade. Não tem sido mais a intimidade que nos diferencia, pois pela sua exposição constante em rede, parece não sobrar mais privacidade. A diferença, no formato da desigualdade, tem sido evidenciada através de uma propriedade material que a maldade busca ostentar.

A carência humana pelo pertencimento é explorada no Capitalismo.  A coletividade se transforma em massa e  cada um, dentro da massa e desse sistema, se percebe único e solitário. Talvez tantas pessoas tenham produzido memes sobre os relatos sobre o ‘golpe do amor’ apresentado pela mídia no início desse ano, tanto pela identificação com o lugar humilde de uma fã, como pela identificação com a maldade de quem quer se livrar desse lugar da fantasia. A IA não faz diferença entre o humor e o deboche, pois não possui a possibilidade de empatia, mas a humanidade em nós é capaz de separar o joio do trigo. Cada pessoa pode sentir estranhamento ao perceber o seu desejo de expulsar a maldade dentro de si, e se perguntar sobre o quanto a sua maldade pode se transformar em erva daninha.

 A tentativa de projetar a maldade humana dizendo que ela está fora, nos outras pessoas ou nas máquinas, não nos faz livrar dela. Segundo Freud(1932)[v], em resposta a Einstein uma carta, repete com mais clareza uma ideia sua já alinhavada: o que trabalha para o fortalecimento da vida intelectual e para a renúncia pulsional trabalha contra a guerra.  Manter a complexidade da curiosidade intelectual e amorosa, renunciando a maldade, parece a tarefa mais humanizadora dos humanos nesse primeiro quarto do século XXI. Desde a imagem das Torres Gêmeas sendo atravessadas por aviões assistida em tempo real pelos humanos globalizados, temos refletido sobre o nosso lugar de paralisia diante da destruição.

        

Casa Mal-assombrada feita de Lego,
Foto: Reprodução

A empatia, a possibilidade de ‘sentir dentro’, segue sendo uma capacidade humana. Somente os humanos sentem o desejo de pertencer ao coletivo e simultaneamente estabelecer uma diferença para se sentirem melhores que os outros. O estranhamento é um sentimento estético produzido pela complexidade cognitiva[vi], pelo sentimento resultante de duas percepções simultâneas. O estranhamento, o infamiliar,  surge entre a percepção de um desejo aparentemente realizado e a percepção da inconsistência dessa completude. Nossa possibilidade reflexiva fica diminuída quando não produzimos perguntas, nem nos inquietamos diante de imagens de horror e concluímos ideias de maneira simplória; isso trabalha a favor da guerra.

         A manutenção da complexidade parece depender da manutenção de um espaço em nós para a humildade. A curiosidade e a imaginação exigem de nós uma suspensão da realização de desejos de maneira imediata. O tempo, sendo ele o intervalo entre o florescer dos desejos e o alívio de todos eles, o espaço entre o nascimento e a morte, o período de sentimento entre o individualismo e a empatia, quando observado com o estranhamento de quem não tem pressa, talvez nos torne mais longevos. A complexidade do amor se opõe a superficialidade da maldade e nos torna ‘mais’ humanos, enquanto o espaço de autômatos seja somente ocupado pelas máquinas.

Simone Engbrecht - psicanalista



[i] Entrevista está no Canal Reconversa do Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=Fw8fJxWhQX8

[ii] Texto nesse Blog: Elogio à Ignorância, de 29 de maio de 2022.

[iv] Termo trabalhado por Sigmund Freud em 1919, no texto chamado Das Unheimliche, traduzido por O Infamiliar, por Ernani Chaves e Pedro Heliodoro Tavares, na Edição Bilíngue da Autêntica, Comemorativa ao centenário da obra.

[v] Essa ideia está na correspondência entre Freud e Einstein: FREUD, Sigmund. Por que a Guerra?  Trad. J. Salomão. Edição Standard Brasileira de Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980[1933(1932)]. v.22, p. 245-259.

[vi]Algumas dessas ideias foram discutidas em ENGBRECHT, Simone. Agora é Assim In MONGELÓ, A.B.C. e MANDELLI, P.A.P. (orgs). Psicanálise & Democracia. Porto Alegre: Melhorpubli Publicações. 2023. p.73-85

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